Em Defesa do Tempo Livre — e de uma Mente Livre

Como digo na página “Sobre este Blog”, criei este blog para nele defender algumas coisas nem sempre muito populares hoje em dia: tempo livre, um certo nível de simples e decente vagabundagem, o que no passado já se chamou de “ócio com dignidade” — otium cum dignitate

Estou convencido de que a inteligência e a criatividade não prosperam sem tempo para pensar livremente, isto é, para brincar e jogar com ideias, para ousar, para imaginar ou mesmo inventar coisas que, num outro ambiente, seriam censuradas ou proibidas, para criar, ainda que apenas no virtual, um mundo totalmente diferente…

Ninguém consegue fazer isso quando tem uma agenda cheia de compromissos, produtos (ainda que relatórios ou artigos) para entregar dentro de prazos inegociáveis…

Andava preocupado com isso, por uma série de razões que não vêm todas ao caso — exceto por uma: fiz setenta anos no dia 7 de Setembro de 2013.

Por coincidência, hoje de manhã, quinze dias depois, 22 de Setembro de 2013, ouvi no sermão do Rev. Valdinei Aparecido Ferreira uma citação que imediatamente me chamou a atenção. Foi de um padre chamado Henri Nowen, falecido em 1996. Eis a citação:

“A questão que precisa guiar toda atividade organizadora na igreja não é como manter as pessoas ocupadas, mas como impedi-las de ficar tão ocupadas a ponto de não mais ouvir a voz de Deus que fala em silêncio.”

(Henri Nouwen, A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo, p. 56).

A passagem me marcou tanto que eu a transcrevi quase com exatidão momentos depois. Eis o que ficou em minha mente e que rabisquei num espaço livre do boletim da a igreja:

“A missão da igreja nos dias de hoje não é manter as pessoas ocupadas, mas impedi-las de se tornarem tão ocupadas que não sejam capazes de ouvir a voz de Deus”.

Fui procurar mais coisa sobre ele Henri Nouwen na Internet e achei esta preciosidade. A citação é longa, mas vale a pena:

[Início da citação]

“Uma das características mais óbvias das nossas vidas diárias é que estamos atarefados. Na nossa vida os dias são cheios de coisas para fazer, pessoas para encontrar, projetos para terminar, cartas para escrever, telefonemas para completar, e compromissos para guardar. Nossas vidas muitas vezes parecem malas abarrotadas rebentando nas costuras. Na realidade, quase sempre estamos cônscios de algum atraso. Há um sentimento incômodo que importunamente nos avisa que há tarefas incompletas, promessas não cumpridas, propostas não realizadas. Sempre há algo mais que deveríamos ter lembrado, feito ou dito. Sempre há pessoas com quem não falamos, a quem não escrevemos ou não visitamos. Assim, embora sejamos muito atarefados, também temos um sentimento persistente de que nunca realmente cumprimos nossas obrigações.

O estranho, porém, é que é muito difícil não estar atarefado. Estar atarefado tornou-se um símbolo de status. As pessoas esperam que estejamos ocupados e que tenhamos muitos assuntos na nossa mente. Freqüentemente nossos amigos nos dizem:

‘Imagino que você está ocupado como sempre’, e o dizem em tom de elogio. Reafirmam a presunção generalizada que é bom estar atarefado. De fato, os que não sabem o que fazer no futuro imediato incomodam seus amigos. Estar atarefado e ser importante normalmente parecem significar a mesma coisa. Muitos telefonemas começam com a frase: ‘Sei que você está ocupado, mas será que poderia me dar um minuto?’ Com isto, sugerem que tomar um minuto de quem tem uma agenda cheia vale mais do que tomar uma hora de quem tem pouco para fazer.

Na nossa sociedade orientada para produção, estar atarefado ou ter uma ocupação tornou-se uma das principais formas, se não a principal, de nos identificar. Sem uma ocupação, não só nossa segurança econômica, mas nossa própria identidade é ameaçada. Isto explica o grande temor com que muitas pessoas enfrentam a aposentadoria. Afinal, quem somos depois de não mais ter uma ocupação?

Mais escravizadoras do que nossas ocupações, porém, são as nossas preocupações. Estar preocupado significa encher nosso tempo e espaço muito antes de chegar lá. Isto é inquietação no sentido mais específico da palavra. É uma mente cheia de ‘se’. Dizemos a nós mesmos: ‘E se eu ficar gripado? Se eu perder meu emprego? Se o meu filho não chegar em casa na hora certa? Se não houver bastante alimento amanhã? Se eu for atacado? Se uma guerra começar? Se o mundo acabar? Se … ?’ Todas essas perguntas enchem a nossa mente com pensamentos ansiosos e fazem-nos indagar constantemente sobre o que fazer e o que dizer caso algo aconteça no futuro. Grande parte, senão a maioria, do nosso sofrimento tem ligação com estas preocupações. Possíveis mudanças de carreira, possíveis conflitos familiares, possíveis enfermidades, possíveis desastres, e um possível holocausto nuclear fazem-nos ansiosos, temerosos, desconfiados, gananciosos, nervosos e melancólicos. Impedem-nos de sentir uma verdadeira liberdade interior. Por estarmos sempre prontos para eventualidades, raramente confiamos plenamente no agora. Não é exagero dizer que grande parte da energia humana é investida nestas preocupações temerosas. Tanto nossa vida individual como coletiva estão tão profundamente moldadas por nossas preocupações com o amanhã, que dificilmente o hoje pode ser vivido.

Não somente estar ocupado mas também estar preocupado é altamente encorajado por nossa sociedade. A forma que jornais, rádio e televisão nos comunicam suas informações cria uma atmosfera de constante emergência. As vozes excitadas dos repórteres, a preferência por acidentes repugnantes, crimes cruéis, e conduta pervertida, e a cobertura de hora em hora da miséria humana dentro e fora do país, lentamente nos engolfam num senso abrangente de iminente destruição. Além de todas essas notícias ruins existe a avalanche de anseios. Sua insistência inflexível de que perderemos alguma coisa muito importante se ficarmos sem ler este livro, sem ver este filme, sem ouvir este locutor, ou sem comprar este novo produto, intensifica nossa inquietação e acrescenta muitas preocupações fabricadas às preocupações já existentes. Às vezes parece como se nossa sociedade dependesse da manutenção dessas preocupações artificiais. Que aconteceria se parássemos de nos preocupar? Se o desejo por divertir tanto, viajar tanto, comprar tanto, e nos proteger tanto, não mais motivasse nosso comportamento, será que nossa sociedade atual ainda poderia funcionar? A tragédia é que realmente estamos presos num emaranhado de expectativas falsas e necessidades arranjadas.

Nossas ocupações e preocupações enchem nossas vidas externas e internas até ao máximo. Impedem o Espírito de Deus de fluir livremente em nós e desta forma renovar nossas vidas.”

(Henri Nouwen, Espaço para Deus)

[Fim da citação]

Em São Paulo, 22 de Setembro de 2013.

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